Estudos com placebos demonstram a importância de sentir-se cuidado para o processo de cura

O placebo é uma imitação de um medicamento, em princípio, sem nenhum efeito ou mecanismo ativo, uma forma farmacêutica sem atividade, cujo aspecto é idêntico ao de outra farmacologicamente ativa. Há uma expressão comum, para designá-los: “pílulas de farinha”.  Dessa forma, caso o placebo provoque algum resultado, este será, apenas, de natureza psicológica.  Pesquisas recentes, em diferentes centros de estudo, no entanto, estão trazendo novas informações, que têm estreita sintonia com o que, na Rede Zenitude, acreditamos como uma efetiva e eficaz ferramenta de cura: o a sensação de sentir-se CUIDADO pode trazer benefícios à saúde tão importantes quanto os medicamentos.

Isto mesmo! Em uma destas experiências para entender melhor o “efeito placebo”, pesquisadores norte-americanos descobriram que esses “remédios” inócuos podem ajudar os pacientes a se sentirem melhor, mesmo quando eles estão plenamente conscientes de que estão tomando uma pílula de açúcar.

Medicamentos, exames e procedimentos sofisticados são a base da medicina curativa. Mas existe um elemento tão importante quanto esses no processo de melhoria do paciente: simplesmente saber que está sendo cuidado. Diversas pesquisas conseguiram comprovar o chamado efeito placebo, que consiste na sensação de alívio dos sintomas de determinada doença, mesmo que a pessoa não tome remédios verdadeiros. Ainda que, do ponto de vista fisiológico, o organismo não seja beneficiado com o tratamento, as pílulas de farinha são capazes de agir sobre o bem-estar do paciente com tanta eficácia quanto as drogas farmacêuticas.

O placebo é uma importante ferramenta na pesquisa científica. Geralmente, nos estudos sobre novos remédios, os voluntários são divididos em grupos, sendo que parte recebe o verdadeiro tratamento e outra parte toma falsos medicamentos. O paciente pode ou não saber em qual categoria foi incluído, assim como o médico. Quando nenhum dos dois tem conhecimento sobre quem está usando a droga real, o estudo é chamado duplo-cego. No fim da pesquisa, é possível avaliar se o remédio trouxe efeitos positivos, comparando o estado de saúde dos voluntários que tomaram o medicamento com o daqueles que ficaram com o placebo. “Se o placebo não for utilizado, é difícil saber se os resultados de um estudo estão relacionados ao efeito da droga ou à história natural da doença”, explica ao Estado de Minas Michael Wechsler, pesquisador da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos.

O primeiro ensaio clínico controlado com placebo foi realizado em 1799 pelo médico britânico John Haygarth. O objetivo do pesquisador era testar um equipamento médico chamado trator de Perkins. Tratava-se de um objeto pontiagudo de metal que teria habilidades de “apagar” a doença do organismo. Cético, Haygarth resolveu investigar a eficácia do equipamento, comparando seu uso ao de objetos idênticos, mas de madeira. “Em um grau que jamais suspeitamos, verificamos quão poderosa é a influência da imaginação sobre as doenças”, concluiu o médico, em um livro publicado em seguida.

De acordo com o pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Marcus Zulian Teixeira, que escreveu um artigo sobre o tema, publicado na Revista da Associação Médica Brasileira desde aquela época, “o efeito placebo já trazia benefícios para a ciência médica, demonstrando ‘a maravilhosa e poderosa influência das paixões da mente sobre o estado e os distúrbios do corpo’”. “Com a introdução dos ensaios clínicos randomizados, duplos-cegos e placebos controlados, os relatos de mudanças clínicas significativas nos grupos do placebo conduziram à difusão de que a intervenção pode apresentar efeitos poderosos em diversas condições clínicas”, relata o autor do artigo “Bases psiconeurofisiológicas do fenômeno placebo-nocebo: evidências científicas que valorizam a humanização da relação médico-paciente”.

Ação sobre a asma
É a essa relação de confiança e empatia entre doentes e médicos que se dedica o trabalho de Ted Kaptchuk, cientista e professor associado da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, autor de diversos livros e artigos. Recentemente, Kaptchuk publicou mais um trabalho sobre o efeito placebo, na revista especializada New England Journal of Medicine. No estudo, o cientista e sua equipe, da qual faz parte Michael Wechsler, investigaram a resposta ao placebo de pacientes com asma. O teste, duplo-cego, foi realizado com 46 pessoas divididas aleatoriamente em grupos. Algumas usaram inaladores com remédio, outras, inaladores com falso medicamento, enquanto o restante fez acupuntura ou não recebeu nenhum tratamento.

Ao longo da pesquisa, os voluntários fizeram 12 testes para verificar a capacidade pulmonar. O exame revelou que entre aqueles que inalaram o medicamento o ganho respiratório real foi de 20%. Nos grupos do placebo, o índice foi de apenas 7%. Mas quando consideraram o relato dos pacientes da percepção que eles tinham sobre a melhoria de seu estado de saúde, os pesquisadores descobriram que não houve diferença entre os que tomaram o remédio e os usuários de placebo: 50% dos voluntários submetidos a alguma intervenção, fosse ela real ou fictícia, disseram que se sentiam melhor. Já entre os que não receberam nem remédio nem tratamento placebo o percentual caiu mais da metade.

“Aparentemente, o placebo de fato melhora os sintomas, apesar de não sabermos exatamente o motivo. Isso mostra a importância de um tratamento, ainda que, objetivamente, o placebo não forneça a cura. Por exemplo, o placebo pode não curar o câncer, mas pode ajudar o paciente em relação à percepção de como ele se sente”, diz Wechsler. “No nosso artigo recente, verificamos que só o fato de saber que estava sendo tratado já trazia um grande impacto ao paciente, tão grande quanto tomar uma medicação verdadeira”, completa Kaptchuk (leia entrevista). Ambos os cientistas afirmam que testes sobre o efeito placebo comprovam a importância da confiança e da empatia entre médico e paciente para que este se sinta melhor.

Não se trata apenas de pensamento positivo, como muitas pessoas podem achar. Em um outro estudo conduzido por Kaptchuk, o cientista resolveu investigar se, mesmo sabendo que tomavam “pílulas de farinha”, os pacientes sentiam alguma melhora. Oitenta pessoas com síndrome do intestino irritável foram divididas em dois grupos: o de controle não recebeu qualquer tratamento, enquanto o outro tomou comprimidos de açúcar duas vezes por dia, sabendo que não havia qualquer fármaco na composição. “Até a embalagem continha a palavra ‘placebo’. Dissemos aos pacientes que eles não tinham de acreditar no efeito do placebo, mas precisavam apenas tomar as pílulas”, recorda Kaptchuk.

Durante três semanas, os pacientes foram monitorados. Ao final dos testes, 59% dos que ingeriram o comprimido de açúcar relataram alívio nos sintomas, enquanto o índice do grupo sem tratamento ficou em 35%. “Não achei que fosse funcionar”, conta Anthony Lembo, professor de Harvard que integrou a equipe de pesquisadores. “Me senti estranho pedindo para os pacientes tomarem placebo. Mas, para minha surpresa, parece que isso funcionou para muitos deles”, confessa.

Mecanismos psicológicos
Embora diversas pesquisas já tenham comprovado o efeito placebo, os cientistas ainda estão atrás dos mecanismos cerebrais envolvidos no processo. “Essa é uma área em investigação e estamos muito interessados em aprender mais a respeito. Ainda se sabe pouco sobre a ciência do efeito placebo”, diz o pesquisador de Harvard Michael Wechsler. De acordo com o cientista Ted Kaptchuk, diversos neurotransmissores estão envolvidos, incluindo endorfina e dopamina. “Além disso, sabemos que há áreas específicas do cérebro que modulam emoções e sensações, como o córtex cingulado anterior rostral, relacionadas ao placebo”, conta.

Em um artigo publicado na revista médica Lancet, Kaptchuk e sua equipe reviram diversas pesquisas sobre o tema e concluíram que, do ponto de vista fisiológico, são muitos os mecanismos que contribuem para o efeito placebo. Expectativa, condicionamento, aprendizado, memória, motivação, recompensa e redução da ansiedade são alguns deles. Dois, de acordo com o artigo, parecem ser os mais importantes: a expectativa e o condicionamento. Enquanto a esperança de melhora aciona as áreas do cérebro relacionadas ao desejo e às emoções, o fato de o paciente tomar todos os dias o falso medicamento condiciona a mente a “acreditar” que algo está acontecendo. Isso, segundo Kaptchuk, inconscientemente, desencadeia respostas imunológicas e hormonais.

 

ENTREVISTA – Ted Kaptchuk – cientista da Universidade de Harvard

Ted Kaptchuk acredita que o efeito placebo produz resultados importantes na investigação das doenças

O que os sistemas de saúde podem aprender com o efeito placebo?
Acho que os sistemas de saúde usam efeitos ‘não específicos’do tipo placebo o tempo todo. O que a pesquisa sobre o placebo faz é permitir que os médicos vejam a sua magnitude e importância para os pacientes. Ela demonstra que, além de procedimentos e medicações, oferecer cuidado às pessoas é um componente crítico para a melhoria do paciente. Também há experimentos que sugerem que, mesmo quando o paciente sabe que está tomando placebo, o falso medicamento continua fazendo efeito. Acho que estamos falando sobre reconhecer que há mais dentro de um sistema de saúde do que simplesmente passar remédios e exames. No nosso artigo recente, verificamos que só o fato de saber que estava sendo tratado já trazia um grande impacto ao paciente, tão grande quanto tomar uma medicação verdadeira.

Quando o paciente descobre que seu tratamento é placebo, as melhorias podem sofrer impactos negativos?
Se o paciente acha que o placebo é uma coisa idiota, falsa e fraudulenta, ele vai experimentar regressões em seu quadro. Mas se os pesquisadores explicarem que esses efeitos são, na verdade, o poder da autocura, e explicar isso antes de o paciente receber o placebo, há evidências de que o doente não sofre regressão.

Considerando que o efeito placebo de fato existe, isso quer dizer que pensamentos positivos podem curar?
O efeito placebo inclui pensamentos positivos, mas também inclui a relação entre médico e paciente; a confiança naquele diploma pregado na parede, a empatia entre ambos, a compaixão e a persuasão do médico. Além disso, inclui tomar as pílulas falsas. Por isso, acho que é algo maior do que apenas a força do pensamento.

Pois, em uma experiência incomum para entender melhor o “efeito placebo”, pesquisadores norte-americanos descobriram que esses “remédios” inócuos podem ajudar os pacientes a se sentirem melhor mesmo quando eles estão plenamente conscientes de que estão tomando uma pílula de açúcar.

Quase 60% dos pacientes com síndrome do intestino irritável relataram que se sentiram melhor após tomar placebos – sabendo que eram placebos – duas vezes por dia, comparado a 35% dos que não receberam qualquer tratamento novo, relataram os pesquisadores na revista Public Library of Science PLoS ONE.

“Não apenas deixamos absolutamente claro que as pílulas não tinham ingrediente ativo algum, como ainda colocamos a palavra ‘placebo’ impressa no vidro que continha as cápsulas” afirmou no estudo o líder da pesquisa, Ted Kaptchuk da Escola de Medicina de Harvard e do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston.

O efeito placebo tem sido documentado praticamente desde o início da medicina. Os placebos são também vitais para a investigação sobre novas drogas ou tratamentos, e em geral os cientistas têm documentado que de 30% a 40% dos pacientes relatam sentir-se melhor ou mostram melhora documentada dos sintomas, mesmo sem saber que estão tomando um placebo.

É considerado antiético, no entanto, dar a um paciente placebo como parte do tratamento médico padrão, e não lhes dizer que é apenas uma pílula de açúcar. A maioria das pessoas crê que o placebo não funciona se o paciente sabe que é um placebo.

Para testar essa crença popular, Kaptchuk e seus colegas recrutaram 80 pacientes com síndrome do intestino irritável – uma condição crônica caracterizada por dor abdominal – para receberem placebo ou nada durante três semanas e serem cuidadosamente monitorados. Os que receberam placebos foram lembrados que estavam tomando pílulas totalmente inertes.

“Me senti estranho com pacientes pedindo para literalmente tomar placebo. Para minha surpresa, no entanto, a pílula inócua funcionou para muitos deles”, disse Anthony Lembo, um perito que trabalhou no estudo.

O estudo foi financiado pelo Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa dos Estados Unidos.

 

(Fonte: Reuters Health)

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Autor: Ney Mourão

Ney Mourão é jornalista e educador. Especialista em Educação a Distância. Poeta; autor do livro "Notas Dispersas pelas Paredes" (Editora Autêntica). Interessado em PESSOAS, tem formação em Terapias Holísticas (Reiki, Shiatsu, Reflexologia Podal, Florais de Bach, Aromaterapia). Em seus atendimentos, prefere dizer que acalenta almas para que estejam bem em seus corpos.

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