Impressões de uma jornada

 

– Sobre o I Encontro “Celebrando a Energia da Vida”, No Instituto Renascer da Consciência, nos dias 20 a 22 de novembro de 2009 –

(Ney Mourão)

 

 

Encontro "Celebrando a Energia da Vida": trilhando caminhos de aprendizado!
Encontro “Celebrando a Energia da Vida”: trilhando caminhos de aprendizado!

Escrever sobre determinados momentos é como quando nos colocamos a mostrar fotos para alguém e, meio aflitos, ao seu lado, tentamos improvisar uma legenda imediata e ansiosa, sôfregos por transmitir a emoção e as sensações que sentimos, quando estávamos lá, naquele lugar, imersos naquela paisagem, agora estática e sem vida, da foto mostrada.

 

Escrever sobre determinadas circunstâncias é carregar o sofrimento do escultor, que traz em sua alma a vibração da forma, mas que sabe, lá no fundo, que suas mãos serão incapazes de materializar, com toda a definição e nitidez, a embriaguez de seu delírio.

Eis que me arrisco a contar sobre um Encontro. Um Encontro de corpos, mas, mais que isso, um Encontro de almas. Aconteceu em novembro de 2009. E parece que ainda acontece e acontecerá por muitas existências, na vida de cada um.

Quando lá chegamos, não podíamos imaginar que tudo seria tão forte. Logo no início, um ritual de lava-pés. E um passeio consigo mesmo em um labirinto, descalços, embalados pelo cantar dos seres da noite. Com os pés ainda úmidos, e o coração inundado de perguntas. Como fazer apenas UMA ao labirinto? Com os pés ainda úmidos do lava-pés que nos lavou e começou a nos despir na água, logo na entrada. E a água tépida, que imaginávamos gelada, aqueceu nossos corações para um jantar cheio de significado, bênçãos e gratidão. Sem carne, para aquietarmos o espírito. Sem grandes ruídos, para ouvirmos as nossas vozes internas e as vozes dos irmãos mais próximos.

Depois, a construção de uma mandala. Para surpresa do facilitador, tal como aves, instintivamente, recusamo-nos a construí-la no chão. Indícios iniciais de que iríamos voar! Muito amarelo, muito azul, muito verde, muito cuidado e muita simetria, tudo guardado, tudo simbolizando acolhimento e carinho. Que noite! Que primeira noite! E eis que nos surpreendemos de novo: não houve fotos! Seria pouco, para registrar os sentimentos… Ainda não inventaram nada que fotografe nossas almas em chamas.

 

Antes do recolhimento, um ritual. Uma escolha: a figura geométrica que, sob a luz das estrelas, mais lhe atraísse, em um jardim de formas. Círculos, quadrados, pentagramas, hexagramas, pirâmides… Tudo pequeno e ao mesmo tempo tão vasto, para a grandeza dos questionamentos humanos. Para onde? De onde? Como caminhar? Perguntas para embalar nossos sonos e sonhos. No dia seguinte, um dia lindo a nos esperar!

Um dia que amanhece com o canto de um pavão? Ora, ora! Já devíamos prever que a noite anterior era apenas um aroma, perto dos mil sabores do dia. Um desjejum especial, com melado e raízes e frutas e sucos e ervas e chás… E boas companhias ao redor. Outros grupos, outras formações, outras buscas. Outras vontades de caminhar. Mulheres bonitas – e o que mais? Bonitas, alegres, radiantes… Um grupo que dividiu conosco o espaço e a vontade de compartilhar…

E, falando em caminhar e compartilhar, lá fomos! Um lugar chamado Reino das Pedras! Para quebrar a dureza de nossos corações, tornar-nos mais flexíveis para a auto-compreensão. Um caminho mágico e em silêncio. Mais vozes internas. Mais intuições e sussurros ao ouvido. Das alturas, uma pena de águia que caiu. Um presente, marco simbólico para o Encontro! Choros de emoção, primeiros compromissos de renovação. Renascimentos… Nascimentos… Renovações…

Mas era necessário continuar caminhando. Pelo caminho por onde um dia os ancestrais foram levados. E pelas trilhas do sincretismo e do ecumenismo. Raízes africanas, orientais, hindus. Memórias atávicas de atabaques vigorosos e sons memoriais de templos budistas e cheiros de incenso. Tudo em um mesmo cadinho efervescente e visceral. Houve gente que se incomodou. Houve quem se desacomodou. Houve quem cantasse uma música linda – desconhecida naquele momento até mesmo para ela. Houve quem pensasse que queria não sentir a vontade de estar sentindo. Houve quem visse borboletas azuis a guiar o caminho e quem visse reflexos dourados na água, a revelar presenças. Mas não houve indiferença – já que essa, ao contrário do ódio, é o oposto do amor que nos embalou em todos os momentos. Que manhã inesquecível!

 

Depois do almoço, novamente abençoado, um momento para resgatar a criança esquecida. Trilha de pipocas. E uma certa irreverência no ar.  Difícil juntar todos. Cada um brincando de esconde-esconde. Uma confusão que acabou por nos mostrar que precisamos, sim, de momentos em que nos deixemos ser levados pelo moleque descalço ou pela menina de trancinhas que ainda estão ali, em algum lugar da nossa alma, adormecidos, esperando pra brincar. Que bom, exercitar responsabilidade com alegria. “Tenhamos a responsabilidade do adulto, sem deixar morrer a alegria da criança que habita em cada um”. O recado veio certeiro, sabe-se lá de que parque florido das alturas! Mas chegou aos ouvidos com a força de uma canção resgatada da infância! Que tarde!

 

Grupo Meu Cantar (ao fundo) e participantes do I Encontro "Celebrando a Energia da Vida"

Mas ainda havia muito a se emocionar. E, numa noite tão linda, fomos embalados por um quarteto de vozes pra lá de especial. Quem ensaia o Grupo “Meu Cantar”? Serão os anjos, na certa! Ou, quem sabe, as estrelas e o luar… Ou, quem sabe, ainda, aprenderam com o canto do pavão que, ao fundo, fazia coro com eles. Vozes repletas de tudo. Um cantar de celebração da vida! Meu cantar, nosso cantar, o cantar de todos!

 

O local tem um nome emblemático: Renascer da Consciência. Tais como Fênix, lá estávamos, à noite também, ateando fogo em nossas asas e emoções, para renascer das cinzas. Em dado momento, literalmente, quando escrevemos em nossos papéis as mágoas, os rancores e propusemo-nos a deixar que se esvaíssem sob as chamas de uma fogueira sob uma linda lua a nos iluminar. E quão foi difícil acender a fogueira! Parecia que ela queria nos dizer como é difícil, mesmo, livrarmo-nos assim, do que é mal, para recebermos o bem de alma lavada – e aquecida! Mas teimamos! Tinhosos da vontade de sairmos melhor. E assim foi. Mesmo difícil, as labaredas subiram aos céus, levando ao firmamento nosso propósito. Ao dormirmos, deixamos ali, queimando, um pouco do que tínhamos sido. E, com certeza, o pouco que deveria mesmo ter deixado lá, a arder. Que noite!

 

"Biodançando" e celebrando!

E eis que chegamos ao último dia. Último? Talvez melhor dizer… a véspera do primeiro de dias diferentes a se descortinarem. Pela manhã, após o desjejum que já deixava saudades e da meditação cheia de magia, dançamos a vida! Bio-DANÇA! Gestos para expressar a alma. Alma expressa em cada movimento. Sentimentos aflorados, durante e depois. Choros contidos há décadas. Novos compromissos. Anseios. Novos rumores interiores e silêncios. Depois, o abraço energético aos que não foram, aos que estavam em espírito, aos que poderiam e deveriam estar… A você, que agora lê e não foi. Ao planeta inteiro. Energia real, pulsante, acessando o poder que temos latente e que, agora, cremos possuir! Que manhã!

 

Antes da despedida, um passeio até a cachoeira. Guardados por energias santificadas, ruídos da natureza, aromas, flores… Novos compromissos e enfrentamentos de medos. Alguém que deixou para trás o receio de mergulhar em si mesma… Alguém que descobriu-se imerso em carinho e proteção.

Na despedida, compromissos concretos. Posturas, atitudes e ações individuais e coletivas por um mundo melhor. Uma roda de diálogo, para um abraço inesquecível. Uma vontade de ficar. Poucas fotos, porque os dedos foram mais lentos que a alma, para registrar. Uma pena de águia, que viajará pelo mundo, como se ainda pertencesse a asas que vivem e pulsam.

 

E uma pedra fundamental, para se lembrar.

Uma pedra, para lembrar? Mas… como esquecer?

(A você, que não esteve conosco nesse Encontro, o desejo de que nossa energia tenha lhe alcançado, de alguma forma. E o convite para que entre nesse abraço de elos apertados, onde sempre haverá um lugar reservado… Esperamos por você, nos próximos encontros!)

Ney Mourão

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2 Comentários


  1. Ney, que maravilha… que aconchegante…sem palavras!
    A primeira imagem, a trilha, nos faz caminhar lentamente e sentir o perfume das flores…
    Adorei! Me imaginei só de “te”ler!
    Parabéns!

    Katia

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  2. Ney, sou estudante de Arquitetura e estou fazendo um trabalho em que preciso criar um ambiente, vou criar um espaço para relaxar e adorei este texto, maravilhoso. Um Abraço, Marcy (marcmsg@bol.com.br).

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