Nadadora mais velha do país coleciona troféus e vence Copa Brasil aos 92 anos

Conquista aconteceu depois de a atleta enfrentar um transplante de córnea e a quebra de seis costelas e da bacia em atropelamento

Nas piscinas  do Barroca Tênis Clube, em Belo Horizonte (MG), pode estar o segredo da fonte da juventude. Nas águas frias das manhãs, Laura de Oliveira, de 92 anos, natural de Monte Azul, a nadadora mais velha do Brasil, reabastece as energias, recicla pensamentos e revê amigos. Além de colecionar troféus, a atleta cultiva amigos na equipe master do Barroca, campeã mineira por 10 vezes consecutivas. A turma segue junto para bailes, festas de aniversário dos colegas e em viagens para competir. “Se as medalhas fossem de ouro, teria uma fortuna”, brinca a nadadora, que deixa as medalhas guardadas em uma caixa e usa os troféus como peso de porta no apartamento do Bairro de Lourdes, na Região Sul de Belo Horizonte. Um dos maiores trunfos da idade é aprender a dar valor às coisas certas da vida, ensina Laurinha: “Meus tesouros são meus colegas e minhas colegas de 70 anos.”

Antes das 7h, ela chega de ônibus ao clube, sozinha, com o maiô por baixo da roupa e uma pequena valise. Sobe rapidamente o morro que dá acesso à piscina olímpica, deixando para trás muitos jovens atletas que treinam no mesmo horário. Poucos têm o mesmo pique que Dona Laura, que vai logo rejeitando o pronome de tratamento “dona” e impondo o Laurinha, mais informal. Põe a touca e os óculos de natação sem retirar o batom vermelho, vivo, que já faz parte da indumentária da nadadora. Até mesmo dentro da piscina, Laurinha está sempre sorrindo. Para ela, não há tempo ruim para cair na piscina e nadar de braçada nas águas da vida.

Na Copa Brasil Master, no mês passado, em Brasília (DF), Laurinha saiu com medalhas de ouro nos 50m livre e 50m costa. Fez o tempo de 1min39s30 no nado costa, depois de quase dois anos fora da atividade. Depois de enfrentar um transplante de córnea, ela acabou sofrendo um acidente quando atravessava a rua em frente de casa. Foi atropelada, teve seis costelas e a bacia quebradas, mas por milagre voltou para as piscinas. Só conseguiu se recuperar por causa do condicionamento físico. Ela diz que nasceu dentro do rio em Monte Azul, mas só sabia nadar cachorrinho até os 70 anos, quando aceitou o convite da filha caçula para aprender a nadar. Daí não parou mais.

O nado preferido de Laurinha é crawl, mas o melhor tempo dela nas competições é no peito. “Gosto mais de nadar crawl, mas antes do acidente havia tirado o terceiro lugar mundial no nado peito. Meu nado peito não é tão bom, é dificílimo, é vagaroso”, compara. Seu treinador, o técnico do Barroca Enes Rodrigues Rocha, de 42 anos, discorda. “Na faixa dos 90 anos, o treino não deveria levar em conta performance, mas qualidade de vida. No caso da Laurinha, é incrível mas ela assimila detalhes técnicos dos estilos de nado. Não sei se passo o treino ou se fico babando”, confessa ele, que, em um dos exercícios, a orientou a nadar com a palma das mãos fechada para melhorar a coordenação motora. “Se algum dia bate o desânimo de cair na água, é só pensar nela. O astral dela contagia”, elogia o colega, o nadador master Odis Damasceno, de 65 anos.

“Ela deveria ter patrocínio, viu?”, sugere Dilma, uma dos sete filhos da nadadora, que, além de ter o mesmo nome de presidente da República, está em tratamento com o mesmo tipo de câncer linfático da petista, sendo beneficiada pelas medidas tomadas por ela com a liberação de remédios gratuitos pelo SUS. A nadadora tem 17 netos e 17 bisnetos. Lembra-se dos nomes de um por um e gostaria de ter um tataraneto.

A vitalidade de Laurinha intriga os colegas da equipe e frequentadores do clube. Entre um e outro treino, a atleta é gentilmente interrogada por senhoras mais jovens, que querem saber a fórmula para viver bem. Já habituada às perguntas, a nadadora lança respostas evasivas no ar, uma a cada hora. Ao fim do diálogo, por compaixão, Laurinha abre a guarda e entrega a receita. Segundo ela, quem quiser chegar bem aos 90 anos deve buscar fazer um exercício físico, como caminhada, ioga, natação ou hidroginástica. Para a memória, palavras cruzadas, todos os dias. Mas o ponto mais importante dessa espécie de check-list é ser feliz.

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