Noites Solidárias

Uma das atividades presenciais desenvolvidas pela Rede Zenitude, em 2010, foi o “Noite Solidária”. A ação nasceu com a proposta de arrecadar cobertores e agasalhos para distribuição aos carentes no inverno, nas ruas de Belo Horizonte/MG. Depois, incluímos uma sopa quente. Logo descobrimos que vários outros grupos já distribuíam sopa e que os moradores preferiam outros alimentos que eles pudesse guardar para comer depois. Passamos a oferecer chocolate quente, sanduíche e água.

O Noite Solidária foi mais um aprendizado em minha vida. Serviu para que eu quebrasse alguns paradigmas e começasse a romper alguns preconceitos. Acostumado ao conforto de uma cama quente e à proteção de um teto, confesso que nunca parei para pensar nas dificuldades de um morador de rua. Ou, talvez, se pensei alguma vez, logo imaginava pessoas sujas, sem ocupação, e que representavam um perigo para quem passasse por perto. O contato com esse público fez-me despertar para uma realidade por mim desconhecida: a vida de pessoas que, por motivos diversos, vivem nas ruas. Descobri que nas ruas existem pessoas que se preocupam com sua higiene pessoal, que falam em Deus, que creem em Jesus, que rezam… Pessoas que estão em situação difícil, muitas vezes sem saber como irão alimentar-se no dia seguinte, mas que, mesmo assim, acreditam que um dia estarão em situação melhor.

Através desta pequena atividade, descobri que existem pessoas que dormem nas ruas, mas que durante o dia buscam empregos alternativos. Ajudam a descarregar caminhões no Mercado Central, catam papel e outros recicláveis para vender, lavam carros. Descobri, também, que existem pessoas que moram nas ruas e são artistas talentosíssimos. Em uma de nossas saídas, encontramos um ator de teatro que nos presenteou com belas declamações. Em outra, deparamo-nos com um artesão que produz peças decorativas utilizando latas de cerveja.

Conhecer de perto um pouco da realidade do morador de rua fez-me descobrir que são pessoas carentes de recursos materiais. Mas, muitas delas, têm o coração mais puro e repleto de fé do que muitos de nós. Quantas vezes ouvi de alguns deles frases como “Deus não abandona nenhum de seus filhos”, “Que Jesus os acompanhe, assim como ele tem-nos acompanhado”, “Eu sou feliz porque tenho Jesus no coração”, “Eu tenho fé que ainda vou sair desta”.

Nas ruas, descobri, também, que morador de rua tem higiene e se preocupa-se em manter-se limpo. Alguns deles, ao receberem roupas de nosso grupo, guardam-nas ao avesso, em mochila, a fim de evitar que elas se sujem.

Nestes poucos meses que, a cada 21 dias, saímos às ruas de Belo Horizonte, encontramos pessoas com sentimentos. Casais, amigos, parceiros, COMPANHEIROS. Também encontramos pessoas solitárias. Mas, a grande maioria busca auxílio no companheirismo, seja de um(a) namorado(a), de um(a) amigo(a). Acabei descobrindo que, mesmo com as dificuldades de viver nas ruas, as pessoas continuam disponíveis ao afeto.

É importante destacar que, durante esta nossa pequena jornada, descobrimos que, ao se fazer um trabalho como este, não atingimos apenas aqueles chamados “moradores de rua”. Nas noites, encontramos, também, muitas pessoas que têm suas casas mas que, durante a semana, buscam a sobrevivência, catando, selecionando e vendendo recicláveis. Em uma noite, conhecemos um rapaz que mora bem distante do centro da cidade. De segunda-feira a sexta-feira, ele vem para o hipercentro e até mais ou menos as 23 horas empurra um carrinho de madeira, onde coloca os recicláveis que vai encontrando pela rua. Depois, procura abrigo em um dos galpões de empresa que trabalham com os recicláveis. Pela manhã, vende o material coletado e recomeça a jornada.

No pouco tempo que tivemos de conversa com algumas das pessoas que encontramos nas ruas de Belo Horizonte, descobri uma realidade diferente da que eu imaginava. Deparamo-nos com pessoas humildes e pessoas orgulhosas; algumas honestas; outras, nem tanto; pessoas felizes e pessoas amarguradas; fortes, fracos, bonitos, feios, brancos, pardos, negros; pessoas de todo o tipo, de carne e osso como nós, mas que, por alguma razão, encontram-se em situação financeira mais difícil do que nós. Nossos irmãos, criados pelo mesmo SER SUPERIOR que nos criou.

Ainda não sabemos que rumos o Noite Solidária tomará, em 2011. Apesar de todo o aprendizado, a ação causa-nos uma certa angústia, por querermos fazer mais e não saber como. Às vezes, é frustante sair às ruas, levar o alimento, a palavra amiga e depois deixar aquele irmão dormindo no relento e voltarmos para casa. Porém, ao mesmo tempo, falta-nos muito para abdicarmos de alguns “bens”, como privacidade, conforto e segurança. Sei de diversos casos de pessoas que abriram suas casas aos mais necessitados a fim de acolhê-los. Mas, é muito difícil ser tão abnegado. Creio que estou muito longe disto ainda.

Estamos buscando parcerias com pessoas e grupos que também trabalham com os moradores e trabalhadores das ruas. Acreditamos que, de alguma forma, podemos unir forças e fazer algo por eles. Esperamos sair do assistencialismo e poder encontrar meios de ajudá-los de maneira mais efetiva. Pedimos ao nosso Criador, a Jesus, governante de nosso Planeta, e a todos os seres que trabalham pelo equilíbrio e desenvolvimento da nação humana que nos inspirem e apontem-nos caminhos, onde possamos encontrar respostas para o desenvolvimento de um projeto para os nossos irmãos desfavorecidos economicamente.

Que assim seja!

Foto retirada do site http://louvoresaorei.zip.net/

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Autor: Reginaldo Rosa

publicitário de profissão, amigo de coração. Um geminiano de olhares e ouvidos sempre atentos e abertos ao outro. Acredita no respeito e na diversidade de ideias como um princípio universal. Rekiano, Kardecista, com coração e mentes abertos para toda religião ou doutrina que possa contribuir para o desenvolvimento espiritual. Espera que, em 2010, o conceito Zenitude atinja mais e mais pessoas fortalecendo esta corrente que está só começando.

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