O envelhecimento maduro

Contribuição: Márcia Leão (*) 

Tenho pensado muito no envelhecer de cada um. Este processo, absolutamente individual, perturba, assusta, ao mesmo tempo em que encanta, revigora… 

A partir de mim mesma, percebo que as alterações físicas inevitáveis não têm a capacidade de interferir em quem sou. Pensando nas diversas culturas, percebemos que a velhice pode ser vista de várias maneiras; um peso, um castigo, uma dádiva, um merecimento… E na nossa sociedade?

Temos por aqui duas correntes:
Uma, acredita na eterna juventude e sofre terrivelmente com a ação inexorável do tempo. Recorre, então, a plásticas, a tratamentos impensáveis, tentando mascarar o que não pode ser negado. Para estas pessoas é muito mais fácil aceitar a morte que a velhice. Normalmente, são pessoas que estão muito mais preocupadas com o externo, com as aparências que com os conteúdos.  Estão presas na ditadura de uma beleza padrão,  só possível aos vinte anos, e deixam de vivenciar a beleza  de suas respectivas idades. 

A outra corrente adapta-se a cada necessidade, aceitando sua condição sem, no entanto, esquecer os cuidados necessários para a manutenção da saúde em todos os âmbitos. São felizes por ter conseguido envelhecer com dignidade. São respeitados e admirados por seus familiares e amigos. São bonitos, alegres, “bem sucedidos” (Não estou pensando aqui em questões econômicas).

Na natureza, tudo se transforma todos os dias dentro das quatro estações e ninguém questiona a beleza inerente a cada estação.  Também em nós, as estações acontecem a cada dia e em cada época da vida. Todas belas, todas ricas. “Nada mudou”. A pessoa que nós somos não envelhece. Envelhece nosso corpo, branqueia nosso cabelo, enruga nossa pele, mas nós, em nossa inteireza, não mudamos. Se eu não perder a essência de quem sou, não perderei minha beleza, meu vigor, minha alegria…

O segredo está em aprender a ver o belo de cada época e viver essa beleza em plenitude.  Há que se ter maturidade para perceber este belo. Há que se ter olhos para ver a intensidade de vida contida em cada ruga, em cada fio branco de cabelo, em cada história.

Nada a criticar. Cada um viveu o que conseguiu viver. As escolhas feitas não têm volta, mas temos ainda as escolhas a fazer. Como quero viver daqui para frente. Lamentando cada ano passado ou agradecendo cada novo dia; curtindo tudo o que a natureza me proporciona, me adaptando todo dia à minha nova realidade, agradecendo os avanços tecnológicos que me permitem viver melhor em todas as idades; cuidando do meu corpo, da minha mente, do meu coração, do meu espírito; alimentando o meu ser de esperança, ternura, gratidão…  Ainda que aos 100 anos, tenho todos os dias escolhas a fazer. 

Como quero envelhecer?  Eu tenho escolhido envelhecer feliz. 

(*) Márcia Leão  é assistente social. Proprietária do Solar das Estações Hospedagens Ltda. Fundado em 2002, o Solar atende atualmente a um grupo de onze idosos com necessidades especiais (Alzheimer, Corpúsculos de Levy, Parkinson, sequela de AVC etc), de ambos os sexos, em carater de residência ou casa dia.  A instituição está situada no bairro Sion, em Belo Horizonte/MG, contando com uma equipe especializada de técnicos de enfermagem, fisiotrapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista, psicóloga, educador físico e fonoaudióloga. Atende na perspectiva de residência assistida, usando diversos recursos de abordagem que buscam estimular e facilitar a convivência social destes idosos e seus familiares. Márcia Leão ressalta: as visitas são abertas e sempre bem vindas.

 
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