Um canto que vem do Haiti…

Em meio ao caos, à desolação e aos escombros do Haiti, um acontecimento que mereceria a maior de todas as manchetes. Depois de uma semana – isso mesmo: UMA SEMANA! -, um homem não se afastou por um segundo do local onde estaria a sua mulher. Apesar de todos os esforços das pessoas, dizendo que não havia mais chance dela estar viva, debaixo de tanto cimento, ferro retorcido, poeira, ele disse que ainda tinha esperanças e uma certeza absoluta de que ela estaria viva. Dali ele são sairia, até que lhe provassem o contrário!

Nenhum ruído deu a ele essa esperança. Ao redor, apenas o vazio, a ruína, o desespero. Nenhum gemido ao longe que pudesse acenar com a possibilidade de que sua esposa ainda respirasse, por milagre, lá debaixo.

Depois de UMA SEMANA, sem dali se afastar, ele acompanha um trator com uma pá empilhadeira retirar toneladas de pedaços de paredes. A empilhadeira, para todos, a metáfora definitiva de que, por vidas humanas, não havia mais o que fazer. Necessário limpar, retirar as lajes caídas, o pó. No entanto, o homem continua lá, sozinho em sua esperança, firme na expectativa de que sua esposa apertasse sua mão e olhasse pelo menos mais uma vez, com vida, em seus olhos. Permanecendo em uma certeza quase insana.

Até que se ouve um pequeno e longínquo gemido. Sim! Um gemido. Um pedido de socorro. DELA! Viva! Tão lá embaixo que foi preciso uma microcâmera para percebê-la. Lá em cima, o marido, cavando com as mãos, num gesto infrutífero, mas revelador de um amor que não tem barreiras físicas. Não! Com as mãos, não! Com as unhas. Feito garras, um bicho tresloucado de amor, tentando rasgar o chão e o concreto, que o separava de um corpo vivo, que clamava por socorro.

Desceram um microfone até a mulher e ela, então, fez duas coisas: primeiro, disse que, caso ela morresse, a coisa que mais importava para ela, naquele momento, era que ele soubesse que ela o amava. Debaixo de uma pilha enorme de concreto e sob um mundo desabado, ela disse que o que mais importava era a revelação de seu amor.

Que morresse, mas que ele tivesse essa certeza!

Depois do dito, ela… CANTOU!

Um canto que pareceu não sair da garganta, mas que veio da alma. Um canto que veio de algum lugar onde mulheres dizem aos amados que eles são importantes, ainda que hajam escombros, destroços, misérias, desigualdades, injustiças, guerras, preconceitos. Um canto de amor correspondido. Um canto que veio de um lugar onde os amantes transformam unhas e garras, para tentar mover um mundo que parece não sair do seu lugar de infelicidades e prantos.

Um canto que, como aquele amor, demonstrado ali, em poucos minutos, diante das câmeras, talvez tenhamos que aprender como a mais bela de todas as canções.

Os noticiários do mundo dedicaram longas e longas horas para mostrar os escombros, a luta pelos alimentos, a tragédia. E poucos segundos, para o homem que acreditou que havia razão para a esperança em meio ao caos, e para a mulher que revelou o amor acima de toda a destruição. E milésimos de segundos, para o canto.

Quisera eu saber aquela melodia, para sair por aí, cantando a todos. Quisera eu que aquele amor se espalhasse pelo mundo, contaminasse cada ser humano como uma bactéria que se instalasse nos corações e nenhuma vacina pudesse jamais prevenir, nenhum tratamento pudesse jamais medicar.

Quisera eu que todos nós acreditássemos na possibilidade do amor, da esperança, do canto! E que essas coisas pudessem ser manchetes diárias, em letras garrafais, a cada manhã de nossas vidas!

Que tenhamos pelo menos um pouco de humildade para aprender com aquele casal. Não sei os seus nomes. Talvez não saberemos nunca. Talvez não saibamos que, como todos, sofreram dificuldades cotidianas, enfrentaram problemas de relacionamento, tiveram que aprender que conviver é um gesto cotidiano de oferta.

O que sabemos é que são sábios, em seu amor e esperança. Com toda a sua aparente simplicidade e pobreza, ricos e sábios, em sua cumplicidade capaz de remover destroços e aproximar corpos, corações e almas.

Amemos… E cantemos!

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