Zoraide – mais que um coração de papel para aquecer os corações

(Ney Mourão)
Havia muitas luzes e brilhos em volta. Muita alegria. Aquela algazarra boa, como nos tempos em que até a palavra algazarra era mais conhecida e festejada. Havia muita gente feliz, muitos pratos sobre a mesa, muitos enfeites por toda a parte. Havia sons de vozes festejando e uma euforia beirando a plenitude. Por isso, nem todos puderam notar…
 

Havia um momento, em princípio, banal. Uma troca de presentes. Havia, é claro, uma proposta diferente: trocar carinhos, tempo de dedicação e compartilhamento. O que é mesmo que eu tenho e que gostaria que, a partir de hoje, estivesse com essa pessoa especial que o destino tramou e colocou em minha rota pela Terra e, ainda mais, nesse momento único, quis que eu o abraçasse, em meio a 23 outras almas? O que eu posso fazer, com minhas mãos, para que seus olhos se encham de luzes, como a árvore resplandecente, que ilumina a sala, nessa noite quase natalina? Assim, havia, também, ouvidos atentos, para escutar tantas explicações, memórias, atavismos, viagens, emoções. Por isso, nem todos puderam notar… 

Havia, dentro do momento maior, outros tantos momentos. O momento de saborear o gosto bom dos alimentos – todos preparados com o melhor dos temperos: atenção ao outro. Havia duas anfitriãs, preocupadas em “servir”, mal sabendo que o maior de todos os serviços era a simples existência delas ali, como almas angelicais, pensando em tudo para que todos se sentissem no céu, envoltos por estrelas de bênção. Por isso, nem todos puderam notar… 

Nem todos puderem notar, em meio a tanto alarido, com todos envolvidos em sentimentos já esquecidos e palavras já nem usadas… Não! Não falo de alarido ou algazarra, que essas são da instância dos dicionários. Falo de coisas que andam fugidias – outra palavra que há muito não ouvimos. Falo de coisas como amor, cuidado, atenção, sentimentos que andam esquecidos, em meio ao atual viver humano, mas que ali, naquele grupo, os corações e almas são insistentes na vontade de resgatar. 

Uma proposta simples: deixar aos pés da árvore algo que tivesse identidade e sinergia com os propósitos de bondade, amor, alegria. Zoraide trouxe o seu presente. Um coração sorridente de papel. Um coração com bracinhos abertos, pronto para abraçar quem o visse. E, com seu gesto, Zoraide abraçou quem estava por perto, abraçou a sala, abraçou a rua, abraçou a cidade, abraçou o mundo, com um gesto inesquecível de desapego e amor. Um coração de papel. Nele, um simbolismo de um tamanho que não se pode medir com as medidas humanas. 

“O coração foi-me dado por meu marido, em um dia muito especial e em um momento que ainda guardo na memória”. O companheiro de Zoraide, muitos não sabem, já não habita esse plano. É, hoje, companheiro das estrelas, dos anjos. E, tenho certeza, onde quer que esteja, naquele momento, ele deve ter parado o que fazia, para não deixar que falte à pequenininha Zoraide um imenso coração construído de estrelas. Imagino o amado de Zoraide, correndo pra lá e pra cá, dando trabalho aos anjos, para recolher estrelas e formar um coração formoso, salpicado de luzes. Nos olhos de Zoraide, falando baixinho, como quem não dissesse um segredo, ela revelou um coração capaz de um supremo desapego. 

Fico imaginando, também, o dia em que Zoraide recebeu de seu amado o coração. Não! Esqueça. Não falo do coração de papel. Com toda certeza, Zoraide recebeu um coração de verdade, com braços fortes de quem ama e que é capaz de deixar em quem fica uma marca tão forte de generosidade. O gesto de deixar o coração ao pé da árvore foi tão rápido quanto a passagem de um cometa, mas marcou meu coração como um abraço na alma. Um presente. Um sagrado coração. O sagrado coração de Zoraide e seu amado, que já se foi. Zoraide não deixou seu coração de papel. Estava escrito, em seus olhos: “Deixo ali, no cantinho, meu coração e uma história de corações que se encontraram, construíram e desenharam corações na areia das estrelas”.

Vi uma lágrima pequena brotando nos olhos de Zoraide. Mas não era tristeza. Era um cintilar de infinito. Como o brilho de alguém que olha e não percebe o que viu. Ela viu, naquele momento, o universo se abrir e seu amado lhe abraçar. Ela viu, sim, os anjos construindo estrelas com luzes. Sei disso tudo, porque também vi, refletido no pinguinho de lágrima brotando em seus olhos. Foi muito rápido. Fugidio, fugaz. Mas ficará, pela eternidade… Como corações, que se abraçam de verdade, em sintonia de amor!

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